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OUTRA ROTA PARA O BRASIL

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Fui aos Lençóis Maranhenses há dois meses. Sim, difícil descrever de tão impactante. Mas outro aspecto me chamou atenção: uma rota de turistas estrangeiros que não conhecia, nunca havia visto nas minhas outras viagens pelo Nordeste e dos tempos de Natal (sou potiguar, residente em Brasília). Descobri um interessante fluxo de gente europeia - franceses e espanhóis foram os que mais se destacaram - que vai a: 1-Lençóis Maranhenses 2-Bahia (Salvador, Pelourinho) 3-Pantanal 4-Foz do Iguaçu 5-Parati 6-Amazônia, sobretudo. Fluxo de portugueses e italianos para Natal, Pipa, Fortaleza ou Recife eu já havia visto, conhecia. Mas este outro, não. E me pareceu alguma coisa mais relevante, verdadeira, ligada não apenas ao lazer da viagem - e essa mania de ostentar conhecer este ou aquele lugar - mas ao prazer de estar realmente em lugares inesperados e únicos. Sei que pode, deve, ter sido mais impressão do que realidade - ou nem tanto? As incertezas, sempre presentes e tornando tudo mais interessan...

O PESO DE UM LEGADO

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Estou na página 521. São 572. Tenho que vencer o último bloco de 50 páginas. Não tem sido fácil, mas aqui e ali, neste pedregal de palavras, parágrafos e manchas de textos que derrubam como uma onda revolta em mar encrespado, brota uma folhinha de clarividência, gratificação, transcendência. Isso é “O Legado de Humboldt”, um dos grandes romances do celebrado autor norte-americano Saul Bellow, Nobel de Literatura de 76. Dele, já li, tempos atrás, "O Planeta do Sr. Sammler". Foi como uma prévia, um teaser - mas nem assim eu poderia imaginar a pancada acachapante deste outro título que, como o anterior, encontrei no ótimo acervo da biblioteca do meu local de trabalho. Preciso numerar, raciocinar por itens. Por que “O Legado de Humboldt” agrada tanto quanto irrita. É um desses livros (assim como o autor) intocáveis. Fica difícil erguer reservas a Bellow e seu petardo de quase 600 páginas. Consagrado, protegido pelo escudo do Nobel. Parece que, para reclamar, só compondo uma semia...

30 ANOS ESTA TARDE

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  Do alto, o avião descendo e a janelinha se agigantando, o que eu via era uma espécie de cópia real do filme Blade Runner. Contra a luz natural do ocaso, quase noite, muitas linhas, traços meio neon, meio tridimensionais em cores fortes, variadas, vibrantes. Não parecia o chão de uma cidade, parecia a superfície de um planeta futurista e delirante. Uma placa de computador em escala infinita iluminada por um led ainda não inventado. Era Brasília se aproximando de mim, uma cidade-futuro, meu futuro – muito mais do que eu suspeitava naquele momento. Cheguei aqui num 23 de maio, como hoje. Era 1995. Trinta anos esta tarde, este anoitecer. No aeroporto, outro elemento. Água. Forte, corrente, sonora, água cantadeira. Nunca vou esquecer o som das cascatas artificiais que havia bem no meio do saguão do aeroporto de Brasília naquela época. Por muito tempo, aquilo se tornou o som das nossas viagens, eu e Rejane, ainda sem Cecília e Bernardo. Transbrasil BSB-NAT, voo dos pobres, 23h. A...

A CADEIA DO EXTERMÍNIO

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Chico, em 1988. Dorothy, 2005. José Cláudio e Maria, 2011. E tantos outros, antes, depois. Erivelto, na mesma semana daquele sangrento maio de 2011. Dias mais tarde, mas ainda no mesmo mês, Adelino, que sobrevivera ao Massacre de Corumbiara, de 1995. Números e nomes associados configuram o extermínio dos chamados “ecologistas populares”, os líderes extrativistas que ousaram defendem a floresta como quem protege com o próprio e frágil corpo o tronco de uma copaíba ameaçada pela motosserra do capitalismo em ruínas, mas que segue operando. Aqui, para destacar o que nos esclarece “Lutar com a floresta”, livro do jornalista e professor da UFBA Felipe Milanez, vamos ficar no caso José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva. Castanheiros, acampados numa legalmente insegura   reserva de extrativistas mantida a muito custo no sul/sudeste do Pará. Só supostamente protegidos pelo Incra, cuja ação – ou falta de ação, e estamos falando de um órgão formalmente voltado à de...

MUJICA / GANDHI

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                                          Em 1982, graças a um daqueles filmes biográficos a que não é preciso assistir para tomar conhecimento, uma figura política tão esquálida quanto carismática integrava o álbum de figurinhas das pessoas que o mundo passava a admirar. Era Gandhi, assassinado em 1948 no difícil contexto dos conflitos indianos, mas que graças ao sucesso do filme ocupou todos os espaços em tevês, jornais e revistas, integrando imediatamente uma espécie de receituário pop da paz e do equilíbrio ao alcance de quem quisesse. E não só pela via da recusa à violência que o marcou, mas também por sua imagem de sobriedade extrema até nas vestes. “Pepe” Mujica renova este papel desde que se destacou no cenário político latino-americano, com sua incrível história de sobrevivente da violência extrema da ditadura uruguaia – e ainda mais agora com sua morte f...

ANALÓGICO, MAS EXCLUSIVO

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  Que o capitalismo dá sinais de fadiga, é inegável. Basta sair à rua para realizar qualquer atividade e este estado de coisas vai se tornar evidente. Nas grandes cidades, são como luzes piscando no céu. Em viagem recente a São Paulo, fiquei impressionado com o desgaste das pessoas, dos seres humanos que me pareceram robotizados por uma vida de exaustão no trabalho.   Senti esse cansaço terminal nas respostas (quando respondiam) que recebi diante de atendente ou balconistas. Gente que parecia estar na base da cadeia trabalhista, implorando pelo modelo 6X1, mas não, há vários e vários sobrevivendo em degraus bem abaixo deles. Nem queira pensar o que eles pensam de suas vidas. Não por acaso, surgiu no horizonte poluído da cidade um espectro chamado Pablo Marçal.   Se os muros do socialismo estatal planejado e corrompido morrem, nada indica que seu equivalente em cifras, lucros, ganhos e exploração do homem pelo homem do lado de cá não possa ter o mesmo fim. No final, sofr...

CINEMATECA EM CASA

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Quem futuca no computador assim sem motivo bem sabe que o YouTube é uma caixinha de surpresas. E se você duvida do clichê, experimente digitar na caixinha de busca os nomes daqueles filmes obscuros que parecem só ter sido vistos por você. Ou, por outra, e o que é bem pior, só terem sido apreciados por você. Posso citar “Quadrilha de Sádicos”, um completo desconhecido, pois não? Desconhecido pra você, cara pálida. Pra mim é um dos filmes mais importantes da história do cinema, por um motivo alheio ao objetivo desse texto (foi numa exibição incompleta deste filme que o cinema poeira da minha cidade foi destruído a pauladas pela plateia em fúria, mas isso é outra história). Voltando: a caixinha de surpresas do YouTube se abriu pra mim ontem assim do nada, como é bem de seu feitio. Esbarrei num filme de Billy Wilder, o austríaco que brilhou no cinema hollywoodiano da era dos estúdios nos deixando pérolas como “Quanto mais quente melhor” e “Crepúsculo dos Deuses”. O título é “Um amor na tar...