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Mostrando postagens de novembro, 2024

Emperrado em Caetano

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Ultimamente tem sido bem raro eu "emperrar" num livro. Pois estou assim justamente com o que menos esperava, o "Cine Subaé", uma coletânea de textos sobre cinema ou fragmentos relacionados ao tema escritos ao longo da vida por Caetano Veloso. Como é que se "emperra" num livro com palavras e pensamentos de Caetano? Não esperava. Mas devia ter previsto, sim, por alguns motivos: 1) Sendo uma seleção de textos sobre o mesmo assunto, escrito pela mesma pessoa, ao longo de uma vida, sendo sobretudo Caetano, cujas ideias eu e metade do mundo já conhece muito bem - embora ele sempre saiba surpreender, mas isso retroativamente não tem validade - era bem possível que em algum momento a leitura desandasse, atolasse num mar de ideias e frases repetitivas. 2) A ênfase do pensamento de Caetano é tão forte, tão chamativa quanto enjoativa quando o ouvinte/leitor se expõe demais a ela. O mesmo vale pra Glauber Rocha e outros realizadores culturais ou pensadores pop a quem ...

MEU JOSÉ

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    Pra mim, José Vicente era como uma lenda. Uma entidade, tão rústica quanto diáfana, pairando acima das minhas origens. Para um catequizado de salões paroquiais, José Vicente soava como um personagem bíblico. Para um leitor de Walt Disney, um Urtigão de carne e osso. Para um frequentador das sessões do cine Rex, um velhote bruto dos antigos faroestes. José Vicente, meu avô paterno, ficava longe. Acima. Além e aquém. Pairava, se superpunha a tudo e todos não exatamente como uma proteção, mas como uma legenda. Estava lá, naquele sítio vizinho ao do meu avô materno, este já morto mas ainda tão presente, próximo, amoroso, querido. Não é que José Vicente não fosse querido, ele apenas não se encaixava nesse tipo de aproximação. Tinha algo de medieval, um tanto de autoridade inquestionável, muito de pai patrão a partir do qual ramos familiares foram se desdobrando à sua sombra. Eu meio que temia José Vicente, numa forma de respeito muito ancestral que, ainda ...