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Mostrando postagens de outubro, 2024

Nosso homem em Itabaiana

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Faz 40 anos, Em algum dia de 1984, eu com 18 anos, fazia uma das várias viagens entre Parelhas, na região do Seridó potiguar, e Recife, onde fazia o primeiro ano de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco. O caminho habitual passava por Campina Grande, onde eu trocava de ônibus. Mas naquele dia, na ocasião que interessa particularmente hoje, 24 de outubro de 2024, eu não estava viajando de ônibus. Ia pro Recife de carona com um conterrâneo de Parelhas, Nilson (obrigado sempre, Nilson) que fazia frequentemente a viagem entre as duas cidades e gostava de ter companhia, até porque o percurso é longo. Estávamos bem adiantados na viagem, já na Paraíba, quando o céu começou a preparar aquele temporal, certamente de verão. Estávamos em Itabaiana, uma cidade que cheira forte, que me ficou na lembrança tanto por aquela chuvarada quanto pela intensidade nas cores, fosse nas paredes das casas, no verde das matas, no peso do ar com umidade saturada.  Parecia aquilo que eu já conhecia...

A substância ilimitada

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Relutei bastante antes de ir assistir ao filme "A Substância". Relutar soa meio fora de moda, não é? Sim, mas combina com "A Substância", que também chegou assim com ares de um filme fora de moda. "Body horror" ou algo parecido é o nome da caixinha em que ele é colocado pra facilitar as explicações. Tipo - "tipo" está à beira de virar algo fora de moda - o oitocentista "A Mosca". Eu havia visto o trailer, que me fez esperar um lixo feito com um bom dinheiro e jurei pra mim que não passaria nem perto. Mas uma conversa do crítico de internet Pablo Villaça me deixou com uma mosca atrás do juízo: ele dizia que a cada cena esdrúxula, para cada novo elemento bizarro, viria outro, e mais outro, e ainda outro, e muitos outros. Farejei um ousadia saudável, desafiadora, interessante. Vamos combinar (que horror, esse "vamos combinar") que ultimamente no cinema, nas séries de streaming, na televisão, tudo fica muito dentro dos limites. Há...

É preciso ser forte; é inevitável alguma fraqueza

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  A minha dificuldade com livros que fragmentam e embaralham o que têm para contar teve que dizer sim a "O Colibri".  Mais que isso, teve quer se ajoelhar aos pés desse belo texto, ao qual cheguei só com base em recomendações célebres e nada mais (vide mais abaixo). Até a página 173 eu estava incomodado com a não-lineariade deste livro, naquele esforço para reter personagens e percalços de uma família que se desdobra em três momentos e gerações, pra frente e para trás.  Mas eis que chego à supracitada página e inicio, desconfiado e ranzinza, a leitura do capítulo "Gloomy Sunday (1981)". O ano citado no título é importante, todos os capítulos trazem uma marcação temporal como esta, e é por ela que você encaixa cada parte da narração na linha do tempo que sublinha o livro inteiro e que define ou indefine os Carrera, a partir da figura do oftalmologista Marco. Então: é como se este capítulo e os dois que o sucedem tirassem de surpresa e sem piedade o chão do leitor. As...

Nunca a vi, sempre a amei

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 Tia Margarida Quem vem a ser? E eu, ou você, com isso? Pra mim também foi assim por muitos anos.  Só há bem pouco tempo minha prima Graça, de Parelhas, comentou sobre ela, Margarida, assim de passagem, muito de passagem mesmo. A finada Margarida. Finada quem? "Sua tia, sua Tia Margarida". Quem? Onde, quando? Nunca ouvi falar. Hoje se fala muito em "apagamento". É um primo não muito distante do "cancelamento". Ambos são figuras bem parecidas. Pois naquele dia eu descobri que apagamento sempre existiu, mas, como a própria palavra sugere, também não se comenta sobre isso. Tia Margarida, de quem eu tomei conhecimento  numa conversa casual e por acaso naquele dia - eu já tinha pra lá dos meus 50 anos, estou com 58 - existiu e foi apagada pela família do meu pai. Não vai  mais julgamento aqui, não há mais tempo para isso. Grande parte da família do meu pai já completou seu período aqui na Terra das provações. Meu avô paterno, minha avó paterna, meu pai, meus ti...

Ri por dentro com o Coringa Dois

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Fomos eu e meu filho Bernardo, de 17 anos, ver o que nos oferecia a continuação do Coringa. Chuva de meteoros raivosos de reclamações aqui na rede dos insatisfeitos, impacientes, incomodados e incapazes de agir - a queixa como estilo vazio de vida. Gostamos do filme. Verdade que eu já havia ouvido algo sobre o interesse do diretor Todd Phillips, de meio que desmontar a figura do Joker, esvaziando as chances de o personagem se tornar objeto de culto, a partir do resultado do filme anterior entre as plateias planetárias do cinema-indústria-pesada de hoje em dia, pelo menos o dominante nas salas. Não prestei muita atenção nesses comentários, foi só um ruído. Mas, uma vez na sala, apreciei o que o filme me oferecer nesses termos: desglamourizar a figura, acessar o farrapo humano em que o personagem foi transformado pelas  misérias que cercaram sua existência, sem deixar chance para fazer dele um  herói das legiões dos ressentidos.  Não entendi como o cineasta relegando sua cr...