A substância ilimitada




Relutei bastante antes de ir assistir ao filme "A Substância".

Relutar soa meio fora de moda, não é? Sim, mas combina com "A Substância", que também chegou assim com ares de um filme fora de moda.

"Body horror" ou algo parecido é o nome da caixinha em que ele é colocado pra facilitar as explicações.

Tipo - "tipo" está à beira de virar algo fora de moda - o oitocentista "A Mosca".

Eu havia visto o trailer, que me fez esperar um lixo feito com um bom dinheiro e jurei pra mim que não passaria nem perto.

Mas uma conversa do crítico de internet Pablo Villaça me deixou com uma mosca atrás do juízo: ele dizia que a cada cena esdrúxula, para cada novo elemento bizarro, viria outro, e mais outro, e ainda outro, e muitos outros. Farejei um ousadia saudável, desafiadora, interessante.

Vamos combinar (que horror, esse "vamos combinar") que ultimamente no cinema, nas séries de streaming, na televisão, tudo fica muito dentro dos limites. Há um cuidado com o bom gosto, ou o bom tom, que não permite ou não estimula ultrapassar certos limites. Quando o faz, vira marco. Breaking Bad passava do limites. 

E francamente, certos limites estão precisando ser ignorados. O avanço estético, mesmo correndo o risco de "não dar certo" ou não atingir o fim que mirava, precisa ser exercitado, recuperado, tirado da gaveta em que foi parar. 

Claro, tivemos recentemente coisas como "Pobres criaturas (Yorgos Lanthimos)", aquela explosão de estilos se espancando mutuamente na tela de maneira que em muitos momentos os seus pobre olhos e seu sofrido cérebro mal sabem como acomodar tudo numa ideia só do que aquele filme representou. Mas vale, vale sim. 

Deixa passar do ponto. O ponto é o que está travando muita possibilidade dramática, muita busca da grande arte possível na arena do mercado do audiovisual. E chega de discurso.

Sim, eu me rendi e fui ver "A Substância".

E, após uma hora de filme, eu me dei conta do quanto estava me divertindo, com um tipo de filme absolutamente inusual nos cinemas de hoje em dia, dando gargalhadas da figura enlouquecida  de Demi Moore meio Madame Mim contra sua segunda e renovada personalidade estética. 

Preciso dizer que "A Substância" é um sátira hilariante sobre a busca da manutenção da juventude e do vigor estético na atualidade, especialmente no mundo deste mesmo audiovisual de que me ocupei há pouco naquele parágrafo discursivo? Não, não e mesmo?

O fato é que me esbaldei com esse raríssimo representante do gênero slasher movie nos cinemas de shopping, que muito me lembrou coisas que vejo só nos pacotes da Versátil, como se o grande acervo da "calda longa" de que falavam os teóricos da comunicação tivesse nvadido, por descuido dos exibidores ou por cansaço da indústria, o grande cinema comercial da esquina. 

"A Substância" é uma ferina investigação exagerada do que a celebridade é capaz de fazer para se manter na crista da onda,  mesmo que precise sair por aí com uma crista de galo implantada na testa. Não perdoa ninguém, não se detém no que precisa mostrar, não teme magoar o nojinho do espectador limpinho que vai combinar cinema-pizza num domingo à noite, não teme conjugar dois rostos lindos da indústria do entretenimento em uma matéria orgânica repugnante que em muito ultrapassa a noção consagrada do filme trash.

Até porque, feitas as contas e deglutidos os restos de pele que se derretem na tela ao longo do filme, "A Substância" é quase um ensaio audiovisual narrativo - e certamente um atrevimento formal que não pode ser ignorado. 

Nem vou falar da torrente de citações com que sua enciclopédia de cinéfilo vai se refestelar entre uma nojeira e outra. Tem um corredor que parece ter sido arrancado do interior do hotel de "O Iluminado" - e logo, logo estará, essa você antecipa fácil, banhado de sangue como o original. Stanley Kubrick nem cobraria direitos autorais, tenho certeza.  Inevitavelmente vem à mente "O Homem-Elefante" de John Houston (que acabei de arranjar numa cópia em DVD e não vejo a hora de rever). Outra alma penada que assombra o filme todo é o espectro sempre presente do cineasta David Cronenber. Esqueceu? É aquele de "Gêmeos, mórbida semelhança" e de... A Mosca. Não que ele sempre se mova neste sentido - também é a mente por trás de "Um método perigoso" e "Cosmópolis", mais recentes. 

A montagem vertiginosa me lembrou os melhores momentos de um cineasta completamente diferente - o Martin Scorcese de "Os bons companheiros". Mas isso não conta, porque toda montagem vertiginosa me leva de volta a esse filme, e eu sempre acho bom demais. O ritmo também me remeteu à primeira vez que estive diante de "Pulp Ficcion", pela sensação de descer ladeira-abaixo com gosto e com vontade.

Cinema requer elaboração, análise, capacidade de contemplação etc etc  mas vamos falar mais ao nível do chão: cinema pra mim precisa sempre, de alguma maneira, por pouco que seja, trazer o elemento "diversão". Porque foi por meio dele que o cinema me encantou ainda criança. E "A Substância" me divertiu como há tempos não acontecia. 

Vou dar um exemplo inverso para tentar me fazer mais claro. Há poucas semanas fui com  meu filho Bernardo conferir "Longless", o elogiadíssimo suspense tipo "voce vai se sentir mal" feito por Osgood Perkins (quem?). 

Sabe o resultado? Sim, eu me senti muito mal. E não vi ganho artístico-pessoal-estético  neste mal estar. Com outras palavras, não me diverti nem um pouco. (às vezes, revejo em outra hora, dia e canal e a impressão muda bastante; acontece).

"A Substância", com sua gritante apelação visual fora dos padrões, esse sim me divertiu, além de escrever numa segunda camada da minha contemplação toda uma intrigante tese sobre uma das obsessões do mundo atual. 

Dito isso, se arme de coragem e vá também. Mas eu não me responsabilizo por nada.

P.S.: Quando eu penso que fiquei na mesma dúvida e não fui ver, no cinema, "A paixão segundo G.H", de Luiz Fernando Carvalho, por causa de uma reles barata, quero virar uma ameba digna de aparecer como extra nas multidões de gosmas de "A Substância". 

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