O PESO DE UM LEGADO
Não tem sido fácil, mas aqui e ali, neste pedregal de palavras, parágrafos e manchas de textos que derrubam como uma onda revolta em mar encrespado, brota uma folhinha de clarividência, gratificação, transcendência.
Isso é “O Legado de Humboldt”, um dos grandes romances do celebrado autor norte-americano Saul Bellow, Nobel de Literatura de 76.
Dele, já li, tempos atrás, "O Planeta do Sr. Sammler". Foi como uma prévia, um teaser - mas nem assim eu poderia imaginar a pancada acachapante deste outro título que, como o anterior, encontrei no ótimo acervo da biblioteca do meu local de trabalho.
Preciso numerar, raciocinar por itens. Por que “O Legado de Humboldt” agrada tanto quanto irrita.
É um desses livros (assim como o autor) intocáveis. Fica difícil erguer reservas a Bellow e seu petardo de quase 600 páginas. Consagrado, protegido pelo escudo do Nobel.
Parece que, para reclamar, só compondo uma semiacadêmica justificativa subscrita por uma banda de doutores em Letras.
A gente também não quer, longe disso, fazer uma espécie de post negação, difamatório, com esse ódio instrumental de rede social. Não é isso. Só compartilhar um sentimento que surgiu na relação com o livro, na leitura com L maiúsculo, de todo dia pegar o livro e remar, remar, remar, ora contra uma água mais mansinha ora enfrentando qual o Santiago de Hemingway marolas de digressões em que você, por mais atento que esteja, acaba se afogando no seco.
Parar um pouco a numeração das condições explicativas para seguir adiante com o que interesse:
É bom se sentir desafiado - e eu nunca, nunca mesmo, abandono um livro, por mais que esteja incomodado ou desmotivado; não, preciso ir até o final. Isso é TOC mesmo, mas um TOC que aprecio. Ajuda a não ser precipitado. E alguma coisa sempre fica, até do ruim.
“Humboldt” desafia, mas não há como não se chatear com o fato de Bellow se dar ao direito - e ignorar seu leitor, de certa forma - de se perder em digressões absolutamente sem norte. Parece uma banda de jazz se arriscando num improviso que pode não render. São lavouras infinitas de textos que ele abre a partir de uma frase, fugindo totalmente à situação que a originou (ou, se não foge, na ótica dele, pro leitor a ligação lógica logo se perde como a visão de uma gaivota em alto mar). Soa como abuso mesmo, sabe?
Só consegui ir à frente, continuar navegando neste mar seco e arenoso, porque como leitor - isso sou eu, é muito particular - desenvolvi uma espécie de escudo ante textos muito vagos, indefiníveis, discursos muito alusivos muitas vezes a elementos que parece que só o autor mesmo parece identificar.
Fico me perguntando, enquanto leio, como um escritor consegue - se ler já se prova tão oneroso - compor tal texto. Fluxo de consciência é um conceito que não basta aqui. Bellow em “Humboldt” é bem mais que isso. Como ele conseguia escrever desse jeito?
Também percebo que é uma literatura, uma escrita, uma forma cultuada e aceita e estabelecida de arte que agora já pertence a outro tempo, outra “era” pra usar uma palavra que traduz bem o que quero dizer. Não sou - muito pelo contrário - um cultuador de um futurismo tecnoutilitarista ou algo assim. Não sou do tipo que odeia o analógico e só aceita o mais digital do digital. Mas o texto de Bellow parece muito “datado” neste sentido. Nos dias atuais, com a velocidade, a carga de obrigações, as distrações e a inundação de stremings, só pra citar alguns exemplos, parece que não permite este tipo de abordagem literária. Tem quem faça, recentemente, como Roberto Bolaño, naquele livro com titulo numérico - e em outros. Não gosto de Bolaño, aí é que tá. Não por acaso.
É isso. Posso mudar de opinião futuramente ou na semana que vem? Acontece. Estou vencendo “Humboldt” do meu jeito, feliz e exausto - e tudo o que espero aqui é não parecer, não ser mesmo, discricionário demais, ignorante em excesso, abusivo nas classificações, precipitado nas conclusões. Mas, enfim, foi a impressão que me causou.
Alguém se arrisca? Tem edição nova e tudo.

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