O PESO DE UM LEGADO


Estou na página 521. São 572. Tenho que vencer o último bloco de 50 páginas.

Não tem sido fácil, mas aqui e ali, neste pedregal de palavras, parágrafos e manchas de textos que derrubam como uma onda revolta em mar encrespado, brota uma folhinha de clarividência, gratificação, transcendência.

Isso é “O Legado de Humboldt”, um dos grandes romances do celebrado autor norte-americano Saul Bellow, Nobel de Literatura de 76.

Dele, já li, tempos atrás, "O Planeta do Sr. Sammler". Foi como uma prévia, um teaser - mas nem assim eu poderia imaginar a pancada acachapante deste outro título que, como o anterior, encontrei no ótimo acervo da biblioteca do meu local de trabalho.

Preciso numerar, raciocinar por itens. Por que “O Legado de Humboldt” agrada tanto quanto irrita.

  1. É um desses livros (assim como o autor) intocáveis. Fica difícil erguer reservas a Bellow e seu petardo de quase 600 páginas. Consagrado, protegido pelo escudo do Nobel.

  2. Parece que, para reclamar, só compondo uma semiacadêmica justificativa subscrita por uma banda de doutores em Letras.

  3. A gente também não quer, longe disso, fazer uma espécie de post negação, difamatório, com esse ódio instrumental de rede social. Não é isso. Só compartilhar um sentimento que surgiu na relação com o livro, na leitura com L maiúsculo, de todo dia pegar o livro e remar, remar, remar, ora contra uma água mais mansinha ora enfrentando qual o Santiago de Hemingway marolas de digressões em que você, por mais atento que esteja, acaba se afogando no seco.




Parar um pouco a numeração das condições explicativas para seguir adiante com o que interesse:

  1. É bom se sentir desafiado - e eu nunca, nunca mesmo, abandono um livro, por mais que esteja incomodado ou desmotivado; não, preciso ir até o final. Isso é TOC mesmo, mas um TOC que aprecio. Ajuda a não ser precipitado. E alguma coisa sempre fica, até do ruim.

  2. “Humboldt” desafia, mas não há como não se chatear com o fato de Bellow se dar ao direito - e ignorar seu leitor, de certa forma - de se perder em digressões absolutamente sem norte. Parece uma banda de jazz se arriscando num improviso que pode não render. São lavouras infinitas de textos que ele abre a partir de uma frase, fugindo totalmente à situação que a originou (ou, se não foge, na ótica dele, pro leitor a ligação lógica logo se perde como a visão de uma gaivota em alto mar). Soa como abuso mesmo, sabe?

  3. Só consegui ir à frente, continuar navegando neste mar seco e arenoso, porque como leitor - isso sou eu, é muito particular - desenvolvi uma espécie de escudo ante textos muito vagos, indefiníveis, discursos muito alusivos muitas vezes a elementos que parece que só o autor mesmo parece identificar.

  4. Fico me perguntando, enquanto leio, como um escritor consegue - se ler já se prova tão oneroso - compor tal texto. Fluxo de consciência é um conceito que não basta aqui. Bellow em “Humboldt” é bem mais que isso. Como ele conseguia escrever desse jeito?

  5. Também percebo que é uma literatura, uma escrita, uma forma cultuada e aceita e estabelecida de arte que agora já pertence a outro tempo, outra “era” pra usar uma palavra que traduz bem o que quero dizer. Não sou - muito pelo contrário - um cultuador de um futurismo tecnoutilitarista ou algo assim. Não sou do tipo que odeia o analógico e só aceita o mais digital do digital. Mas o texto de Bellow parece muito “datado” neste sentido. Nos dias atuais, com a velocidade, a carga de obrigações, as distrações e a inundação de stremings, só pra citar alguns exemplos, parece que não permite este tipo de abordagem literária. Tem quem faça, recentemente, como Roberto Bolaño, naquele livro com titulo numérico - e em outros. Não gosto de Bolaño, aí é que tá. Não por acaso.

É isso. Posso mudar de opinião futuramente ou na semana que vem? Acontece. Estou vencendo “Humboldt” do meu jeito, feliz e exausto - e tudo o que espero aqui é não parecer, não ser mesmo, discricionário demais, ignorante em excesso, abusivo nas classificações, precipitado nas conclusões. Mas, enfim, foi a impressão que me causou.

Alguém se arrisca? Tem edição nova e tudo. 

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