30 ANOS ESTA TARDE


 Do alto, o avião descendo e a janelinha se agigantando, o que eu via era uma espécie de cópia real do filme Blade Runner. Contra a luz natural do ocaso, quase noite, muitas linhas, traços meio neon, meio tridimensionais em cores fortes, variadas, vibrantes. Não parecia o chão de uma cidade, parecia a superfície de um planeta futurista e delirante. Uma placa de computador em escala infinita iluminada por um led ainda não inventado. Era Brasília se aproximando de mim, uma cidade-futuro, meu futuro – muito mais do que eu suspeitava naquele momento.

Cheguei aqui num 23 de maio, como hoje. Era 1995. Trinta anos esta tarde, este anoitecer.

No aeroporto, outro elemento. Água. Forte, corrente, sonora, água cantadeira. Nunca vou esquecer o som das cascatas artificiais que havia bem no meio do saguão do aeroporto de Brasília naquela época. Por muito tempo, aquilo se tornou o som das nossas viagens, eu e Rejane, ainda sem Cecília e Bernardo. Transbrasil BSB-NAT, voo dos pobres, 23h.

Aeroporto lembrava cachoeira,  nada a ver com a seca de Brasília, que eu não conhecia e não tolero até hoje. Se tivesse vindo a Brasília pela primeira vez num período de seca aberta, impiedosa e interminável como acontece após agosto, nunca teria pensado em morar aqui.

No caminho para a Asa Norte, onde moravam Adriano e Flávia (numa quadra que sempre vai morar num lugar aquecido do meu coração, a 216, onde volto sempre que posso), mais linhas. Mais retas. Curvas também, mas aqui as curvas são algo mais. Parecem retas que se desfazem com uma elegância geométrica incomum numa curva qualquer.

Não parecia que eu estava num carro, num veículo automotivo rodoviário. Como que para corresponder à sensação de reta (era o percurso que atravessa o Plano Piloto, embora pegando os eixinhos e não o Eixão, largo e suntuoso), eu me sentia dentro de uma nave.

O carro-nave parecia escorrer em aveludada suspensão sobre o solo também retilíneo, com aquele asfalto espelhado que sempre impressiona quem chega aqui pela primeira vez.

Estava impactado, mas de uma maneira que bloqueava o que podia dos sentidos diante de um cenário urbano tão inesperado. Passamos ao lado da plataforma superior da rodoviária do Plano, mas nem notei, do outro lado da janela do carro, as torres do Congresso e a Esplanada dos Ministérios. Não sei onde estavam meus olhos, logo eu que sou tão contemplativo.

Deviam estar olhando pra dentro, tenho certeza.

Mirando o cenário interno da incerteza quanto ao acerto daquela mudança de cidade.

Só ele era capaz de me fechar os olhos para signos tão característicos de Brasília. O que eu via era igualmente característico, mas menos evidente. A sucessão de prédios todos retinhos, com aquele espaçamento uniforme entre eles, a sensação de ausência de subidas e descidas, a luz tão particular da noite fazendo explodir as cores dessa outra urbanidade.

Tanto que, já chegando na 16, arregalei os olhos para uma ladeira toda iluminada pelos faróis traseiros dos carros. Muitos carros. Muitos faróis, uma multidão de luzinhas se movendo, um tropel de vaga-lumes arribando rumo a um terreno alto. Pensei: ali deve ser o prédio dos pratos pra cima e pra baixo com aquele H do Congresso Nacional. Só pode ser ali, bem no alto daquela ladeira.

Tem que ser ali. Como a gente se engana com Brasília. Como Brasília engana a gente.

Enganei-me achando que Brasília seria uma fase, um período, uma experiência para começar e terminar com alguma brevidade. Tipo um estágio para me testar em outras redações, mais ambiciosas, desafiadoras.

Se alguém me dissesse que na semana seguinte eu estaria escrevendo cabeças de reportagens de TV batucando em máquinas de datilografia daquelas com letras graúdas que se usava antigamente nas redações eu daria risada. Na TV Cabugi, de onde eu vinha, Natal, há tempos já usávamos computadores com telas pretas e letras verdes tipo Matrix.

Este foi apenas um dos enganos. Mas houve os favoráveis, claro: até hoje me impressiona a forma como Brasília recebe gente como eu, com alguma boa formação (eu tinha sim, e isso quem me deu foram as redações de Natal), oferecendo vagas a serem disputadas na base da experiência e do currículo – e só. A rede de relações, se existia, valia apenas se você fosse bom de serviço. Se fosse ótimo, então... Modéstia à parte, eu era veloz, prático, produtivo, era até um pouco criativo. Eu funcionava bem – e isso vale muito para quem muda de cidade, de estado, de mercado.

Não apenas eu. Rejane também teve transformada a vida profissional nesta base. Adriano me recrutou para a Band e, claro, isso facilitou tudo, assim como o apoio de Flávia e também de Nina, que levou Rejane para uma vaga na redação da TV Record. Antônio Melo precisava de um redator no Correio Brasiliense e lembrou de mim – deu certo, eu penteava textos com gana de quem precisa se estabelecer logo. E lá conheci Renato, Rossi, Plácido, tanta gente.

Mas era a experiência que nos garantia, sempre. Sem ela, o jornalista não daria conta – e a conta era alta, viu, sou de uma geração que trabalhou muito pesado, em plantões insones, angústias de fechamento, rigor de precisão, cobrança, até assédio moral (de que nunca fui vítima, ainda bem; e apenas uma vez em que perigou acontecer reagi a tempo e consegui deter; nem sempre era possível).

Brasília era pra ser uns dois anos, virou trinta – com curtíssimos intervalos em que, por duas vezes, tentei retornar a Natal. Não funcionou, por motivos diversos. Mas há na relação com o Fazendão de JK, como a chamo de brincadeira, um componente  quase fatalista que vejo não só no meu caso: a cidade lhe prende, ou lhe puxa de volta.

Reconhece sua capacidade, valoriza seu trabalho, tudo isso sem discurso vazio, sem peroração – a seco. E foi muito bom que tenha sido assim. Brasília me ajudou a aquilatar meu próprio peso, que não é gigante nem ridículo, é o que consegui construir  todos os dias na rotina de várias redações. Band, Correio, SBT (meus bicos, que também os tive), TV Câmara, esta conseguida por meio de um disputado concurso público que comprova exatamente o que estou tentando afirmar aqui.

Natal é a cidade de formação, é doce, solar, quente, amorosa em sentido geral – uma casa boa à beira do mar, sedutora na medida pra quem vem do semiárido seridoense. Brasília é trabalho braçal, distanciamento crítico, experiência ampliada, teste de capacidade, reconhecimento imediato mas sem floreados, a não ser uma sintética flor do cerrado.

Tanto que escrevi tudo isso e mal falei de filhos, bairros, vizinhanças, parque e cinemas. Porque por mais que haja tudo isso, até mesmo os filhos que numa dimensão bem pouco geográfica eu meio que considero mais potiguares do que brasilienses, é o trabalho a tatuagem que Brasília me deixa inscrita na pela após esses 30 anos. Por isso eu vim, e é isso que mais permanece.

Os filhos viriam ainda que eu e Rejane tivéssemos seguido em Natal após aquele maio de 95. Eles mesmos, numa atitude muito brasiliense, nem me parecem tão ligados à cidade. Cecília mais recentemente, sim, mas não era; Bernardo já se bandeou para São Paulo. Brasília me trabalhou assim e nisso os anos foram passando. Vivi 10 anos em Natal e 30 aqui – a impressão é de que ocorreu exatamente o contrário.

Brasília, seca e direta, despreza a emoção e se basta com o que oferece. Sabe que é o bastante. Se não fosse, eu teria voltado. Mesmo. A questão é saber lidar com esse approach, esse jeito de cidade tão distante de todas as outras – e nisso a dupla arquitetura/urbanismo é apenas um sintoma visível.

Na prática, os planos daqui, suas tesourinhas e satélites, suas sucursais jornalísticas e seu ar de Voz do Brasil, sem falar de sua nefasta herança dos tempos da ditadura – que se manifestam sim, bem mais do que gostaríamos – criam outro tipo de habitante. De pássaro urbano. A gente voa na rarefação dessa cidade-sensação que nega sentimentos.

Trinta anos passam num voo rasante sobre o Eixinho Norte – e eu  sigo pensando no filme a que vou ver em casa depois do expediente. Na viagem de férias a Natal; na dificuldade de achar vaga no estacionamento; na saudade da minha mãe que vive dias tranquilos lá em Parelhas; em onde estará Bernardo esta hora do dia; em que dará o estágio de Cecilia na Defensoria Pública... do DF. O voo segue, na cidade que já foi avião no papel. E para sempre será mais real do que imagina o Brasil lá fora.

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