A CADEIA DO EXTERMÍNIO
Chico, em 1988. Dorothy, 2005. José Cláudio e Maria, 2011. E tantos outros, antes, depois. Erivelto, na mesma semana daquele sangrento maio de 2011. Dias mais tarde, mas ainda no mesmo mês, Adelino, que sobrevivera ao Massacre de Corumbiara, de 1995. Números e nomes associados configuram o extermínio dos chamados “ecologistas populares”, os líderes extrativistas que ousaram defendem a floresta como quem protege com o próprio e frágil corpo o tronco de uma copaíba ameaçada pela motosserra do capitalismo em ruínas, mas que segue operando.
Aqui, para destacar o que nos esclarece “Lutar com a
floresta”, livro do jornalista e professor da UFBA Felipe Milanez, vamos ficar
no caso José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva. Castanheiros,
acampados numa legalmente insegura reserva
de extrativistas mantida a muito custo no sul/sudeste do Pará. Só supostamente
protegidos pelo Incra, cuja ação – ou falta de ação, e estamos falando de um órgão
formalmente voltado à democratização do uso da terra – não lhes valeu. Vendo o
avanço das madeireiras, do desmatamento e da produção de carvão subtrair da
floresta a harmonia natural do ecossistema, deixaram a vida pacata que levavam
para correr o risco de ingressar num ativismo de organização e denúncias que
não os pouparia. Como não foram poupados Chico Mendes, Dorothy Stang e tantos
outros cujos nomes se perderam no silêncio cúmplice desta sinistra economia.
Economia é a palavra-chave, embora o verbete inicial
seja terra, ou conflito de terras. A lógica é maior, explica Milanez num relato
tão apurado quanto emocionado, sim, que a emoção é parte do bem-viver que
figuras como Cláudio e Maria defendiam dessa forma transversal tão rejeitada
por quem só vê o desenvolvimento em forma de PIB. Para além do(s) assassinato(s),
emerge da mata o mecanismo de um modo de produção que pretende substituir o
vigor da maior floresta tropical do planeta, a agricultura de subsistência e
castanhais com séculos de existência por terra arrasada. Não é só um libelo
ambientalista empacotado para ONGs de primeiro mundo.
É real, articulado, pensado e realizado: a madeira ilegal é vendida e o que sobra vira pasto para o boi ou carvão para abastecer as caldeiras onde será derretido o ferro-gusa das mineradoras em expansão. É devastação e mineração agindo juntas. Mesmo os projetos desenvolvimentistas que aprendemos a admirar por uma questão de afirmação nacional frente à competição do mercado mundial fazem parte do pacote. Hidrelétricas, rodovias, os vários itens que qualquer jornalista principiante de economia gosta de listar ao se referir ao “custo Brasil”. Tudo faz parte. Tudo é legitimado. Menos a floresta que, no final dessa cadeia, só conta com os ecologistas populares que, mortos, somente assim, serão minimamente ouvidos.
Aqui, o custo é outro, em vidas. Da floresta e das pessoas que denunciam o modelo, mesmo que ele venha embalado em lindos planos governamentais que escamoteiam a rotina associada de medo, opressão, ameaça e violência de fato. Novamente, está tudo encadeado. Tanto quanto a natureza se estrutura nesse emaranhado de causas e efeitos – retire um elemento do seu lugar e haverá uma reação à altura – quando o sistema capitalista sem freios que o quer explorar até o limite final.
Cláudio e Maria, pessoas “do povo”, sem formação acadêmica, moradores da floresta, viam à frente, enxergavam antes este efeito final. Diante da visão dantesca vivenciada como experiência quase tátil por quem faz parte do ecossistema ameaçado, não tinham como não denunciar. A denúncia era parte integrante de sua própria essência. E pagaram por isso. Até o juiz do primeiro julgamento de seus assassinos – dois pistoleiros condenados, um mandante absolvido – colocou neles, na sentença, a culpa pelo próprio extermínio. Eles teriam “agravado” o conflito por terras no assentamento ao denunciar aquele que mandaria matá-los. O crime foi devidamente fulanizado – e as engrenagens do sistema limadas do arcabouço jurídico. Mas, assim como na natureza, está tudo integrado.
Lendo “Um ecologista no antropoceno”, de Mauro Galetti, que encontrei numa das minhas livrarias do coração, a da Unesp, na Praça da Sé, em São Paulo, abri uma porta. Dupla: tanto para os ensaios de jornalismo científico quanto para um novo manual de ideias que está se impondo por força dos fatos, esse que investiga os limites do capital privado e exclusivista dos dias que correm. “Lutar com a floresta”, que encontrei na Travessa de Brasília e vem pela editora Elefante, mantém a trilha aberta. Não é fácil, mas vamos seguir.


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