Nunca a vi, sempre a amei
Tia Margarida
Quem vem a ser? E eu, ou você, com isso?
Pra mim também foi assim por muitos anos.
Só há bem pouco tempo minha prima Graça, de Parelhas, comentou sobre ela, Margarida, assim de passagem, muito de passagem mesmo. A finada Margarida.
Finada quem?
"Sua tia, sua Tia Margarida".
Quem? Onde, quando? Nunca ouvi falar.
Hoje se fala muito em "apagamento". É um primo não muito distante do "cancelamento". Ambos são figuras bem parecidas.
Pois naquele dia eu descobri que apagamento sempre existiu, mas, como a própria palavra sugere, também não se comenta sobre isso.
Tia Margarida, de quem eu tomei conhecimento numa conversa casual e por acaso naquele dia - eu já tinha pra lá dos meus 50 anos, estou com 58 - existiu e foi apagada pela família do meu pai.
Não vai mais julgamento aqui, não há mais tempo para isso. Grande parte da família do meu pai já completou seu período aqui na Terra das provações. Meu avô paterno, minha avó paterna, meu pai, meus tios... a própria Tia Margarida, ou finada Margarida. lembra?
Mas foi muito relevante pra mim descobrir Tia Margarida, saber que ela existiu, a vida que ela levou - o pouco que consegui saber, porque o apagamento é resistente como um lajedo de sítio e se mantém mesmo que tentem quebrá-lo a machadadas. Fiquei sabendo que Tia Margarida foi meio que banida da família - e peço perdão à família se uso palavras fortes demais, mas infelizmente, pelo efeito do apagamento, é o que alcancei saber.
A família do meu pai era basicamente rural, vivendo num sítio na cidade de Parelhas, interior do Rio Grande do Norte, e falamos de um época em que tudo era muito mais difícil. Os muitos filhos tinham que trabalhar na lavoura com os pais desde muito cedo, meu pai mesmo foi impedido de ir à escola pelo meu avô paterno, a quem eu sempre vi como uma espécie de Urtigão, o personagem dos quadrinhos de Walt Disney (coisa da minha geração, esse choque pop cultural com os que vieram antes de mim).
Nessa situação, fui informado vagamente de que Tia Margarida meio que não aceitou as regras do jogo - salve, Tia Margarida! - e conseguiu , não sei como, mudar do sítio da família, na Timbaúba, para a capital Natal. Deduzo que estamos falando dos anos 50. Natal nem era, claro, a Natal que conhecemos. Era tão tacanha quando a família do meu pai. Mas era Natal, a 240 Km de distância, no litoral, outra realidade.
Como Tia Margarida conseguiu trocar a vida rústica e cheia de impedimentos sociais e culturais da Timbaúba do meu avô José Vicente pela Natal cosmopolita de então (guardadas as proporções com a Natal de hoje) será sempre um mistério pra mim.
Minha prima Graça, a quem serei sempre grato por ter me revelado a existência de Tia Margarida (Graça quebrou o apagamento e isso é algo acima de qualquer avaliação), não tem mais dados com que eu possa reconstituir minimamente o que se deu. Apagamento é algo eficiente. O silêncio é cruel quando é usado nesta direção.
Só sei que Tia Margarida não só mudou para Natal, como lá casou e trabalhou como enfermeira. Morreu atropelada por um bonde, vejam só.
Pra mim, desde o momento em que fiquei sabendo da existência dela, Tia Margarida como que renasceu.
Está vivinha dentro de mim, da minha memória, do meu patrimônio afetivo.
Tornou-se meu parente favorito, referência para eu passar para a minha filha, a experiência tão avançada de uma tia-avó modelar para Cecília (e para Bernardo também), que de certa forma redime o acanhamento das coisas dessa família.
Benção, Tia Margarida.
Nós nunca nos vimos, mas eu sempre a amei e amarei.
Eu apenas não sabia - de você e desse amor - como agora sei.
Sabemos.
* A foto que ilustra este texto minha mãe conseguiu e me enviou há poucos dias, depois de uma viagem a Parelhas em que andei conversando muito sobre as coisas da família com o primo Neném, em quem descobri um guardião dessas memórias, tanto as evidentes quanto as apagadas. Valeu, Neném. E voltarei ao assunto porque ele conseguiu outras fotos que a minha mãe também me mandou. Por agora, fiquemos com a minha avançada Tia Margarida.

Comentários
Postar um comentário