É preciso ser forte; é inevitável alguma fraqueza
A minha dificuldade com livros que fragmentam e embaralham o que têm para contar teve que dizer sim a "O Colibri".
Mais que isso, teve quer se ajoelhar aos pés desse belo texto, ao qual cheguei só com base em recomendações célebres e nada mais (vide mais abaixo).
Até a página 173 eu estava incomodado com a não-lineariade deste livro, naquele esforço para reter personagens e percalços de uma família que se desdobra em três momentos e gerações, pra frente e para trás.
Mas eis que chego à supracitada página e inicio, desconfiado e ranzinza, a leitura do capítulo "Gloomy Sunday (1981)". O ano citado no título é importante, todos os capítulos trazem uma marcação temporal como esta, e é por ela que você encaixa cada parte da narração na linha do tempo que sublinha o livro inteiro e que define ou indefine os Carrera, a partir da figura do oftalmologista Marco.
Então: é como se este capítulo e os dois que o sucedem tirassem de surpresa e sem piedade o chão do leitor. Assim como o personagem central - com toda a ciranda de pessoas tão próximas que circulam em torno dele, como planetas e satélites que saltassem de suas órbitas em acontecimentos inesperados - o leitor se vê jogado à própria sorte, na vida e na literatura, nesta ordem ou não. Uma sucessão de perdas atropela o personagem, como não raro acontece aqui fora, obrigando o "colibri" a se manter no ar, batendo as asas quando tudo o que pode desejar é também ele se estatelar no chão áspero que sustenta toda essa história - e mais não convém adiantar.
São três capítulos demolidores - "Gloomy Sunday (1981)"; "Pronto, estão fazendo efeito (2012)" e principalmente o terceiro, "Shakul & Co. (2012)", este quase não recomendável a quem tem filhos adolescentes ou jovens. Repare na disparidades das datas nos títulos destacados.
É como se o livro, do italiano Sandro Veronesi, fosse uma montanha. Até a página 173 você está escalando, escalando, escalando, recolhendo dados, cotejando pedaços de biografias, inferindo relações entre fatos e pessoas. Neste ponto, página 173, você chega numa espécie de topo tempestuoso, em que o clima devasta o aventureiro. Aqui, personagem e leitor serão testados com todas as dores familiares que todos conhecemos e que sabemos o quanto são capazes de solapar um representante da espécie. Não à toa, lembrei de "Ironweed", de William Kennedy, que li há muito mais de trinta anos.
Depois desse topo, que arrebata e deixa tonto o leitor - especialmente o tipo do leitor que se deixa envolver, o que é bem o meu caso - começamos uma não menos pedregosa descida até os vales do futuro, do que se espera do envelhecimento, do que não há como evitar com a por vezes enganosa progressão natural da vida. É natural, mas é barra.
Ninguém lê para sofrer, claro. Já bastam as agruras reais - e delas estamos lotados, em escala pessoal, familiar, grupal, nacional ou internacional, né mesmo? Mas livros como este conseguem pegar o velho e "imorrível" gênero do drama familiar e lhe dar uma nova legitimidade que só pode causar o espanto que "O Colibri" me causou. Prepare-se para lustrar sua humanidade relutante como se fosse um engraxate obsessivo. Ela vai luzir, tanto quanto vai doer.
Pessoas, dramas, ironias e renúncias e preenchem as 321 páginas com seus capítulos de ordem propositadamente embaralhados. O resultado, via fragmentos de cartas ou narração tradicional embebida em molho de um tipo de humor amargo que nem chega a fazer efeito frente ao que conta - e nem quer -, é uma sensação de haver devorado um Dostoievski contemporâneo de 700 páginas.
O livro vem recomendado por figuras como Ian McEwan e o também italiano Domenico Starnone, de "Laços". McEwan é o britânico distanciado por natureza, mas Starnone dá bem a pista do que se vai ler - e o supera.
O fato é que, até hoje, quando me perguntam ou eu mesmo me indago sobre qual o livro de que mais gostei na vida (não o "melhor", isso é bem mais complicado), cito sem titubear "A dança imóvel", do peruano Manuel Scorza (foi o último livro dele, morreu num acidente horroroso no aeroporto de Madri em 1983; e nem é bom pensar no que teria escrito depois deste texto). Isso demanda tempo, depuração, mas, bem, eu agora desconfio de que este "O Colibri" vai se tornar um senhor competidor.
Ou pelo menos eu não vou mais responder assim, de pronto, como tenho feito há tempos.

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