MEU JOSÉ

 

 


Pra mim, José Vicente era como uma lenda.

Uma entidade, tão rústica quanto diáfana, pairando acima das minhas origens.

Para um catequizado de salões paroquiais, José Vicente soava como um personagem bíblico.

Para um leitor de Walt Disney, um Urtigão de carne e osso.

Para um frequentador das sessões do cine Rex, um velhote bruto dos antigos faroestes.

José Vicente, meu avô paterno, ficava longe. Acima. Além e aquém.

Pairava, se superpunha a tudo e todos não exatamente como uma proteção, mas como uma legenda.

Estava lá, naquele sítio vizinho ao do meu avô materno, este já morto mas ainda tão presente, próximo, amoroso, querido.

Não é que José Vicente não fosse querido, ele apenas não se encaixava nesse tipo de aproximação.

Tinha algo de medieval, um tanto de autoridade inquestionável, muito de pai patrão a partir do qual ramos familiares foram se desdobrando à sua sombra.

Eu meio que temia José Vicente, numa forma de respeito muito ancestral que, ainda criança, parece que já não cabia no meu mundo. Aquele ser não era contemporâneo. E eu, tão pequeno, já me moldava moderno, ainda que nem soubesse definir o que era isso. José Vicente parecia não caber num mundo de televisão, rádio, discos, livros, quadrinhos e quejandos. José Vicente era rural demais e toda minha aspiração remetia à vida urbana, hightech, pop. 

Mas eu que me mancasse. Porque José Vicente independia de definições, ele existia e isso era devastador de uma forma muito plena, calma, absorvida, aceita – um fato imutável.

Como José Vicente podia ser tão semelhante fisicamente e tão diferente como pessoa do seu próprio filho (um deles), meu pai? – e que sorte a minha essa diferença ter existido.

Tão diferente do meu tio Antônio – também controlador, como era próprio dos homens da época, mas de uma forma vazada pelo riso, pela graça, pela gaiatice também típica dos caras daquele tempo e lugar.

Ou talvez José Vicente não fosse nada disso – eu é que o construí assim na minha percepção corrompida de criancinha cruel.

O fato é que, recentemente, esse imaginário do avô distante e poderoso me fez tropeçar nas reminiscências de minha própria história.

José Vicente, tendo sido tão maior do que eu, do que meu pai, do que meus tios, voltou-se pra mim e reapareceu sorridente, em cores, quase um holograma. E o fez por meio de uma linguagem das mais afinadas com aquele meu mundo futurista e que dava as costas ao sertão: a fotografia.

Meus primos do mesmo ramo paterno recuperam retratos que eu nem sabia que existiam.

E nelas me reaparece, radiante e rejuvenescido – muito distante da imagem que eu cultivei por uma vida inteira – o José Vicente que viveu até os anos 80.

E eu que pensava que José Vicente não tinha passado de um 1977, 78.

Eu esqueci.

Que certo dia fui levado – como acontecia de vez em quando na infância – a visitar José Vicente. Não era um momento qualquer. Essas visitas certamente contribuíram muito para eu construir a imagem que ergui, em vão, de José Vicente.

Pois bem, fui informado por meu primo Neném – ex-músico da banda Feras, fundada na casa do meu tio Antônio com outro nome, mas isso é assunto pra outra conversa – que José Vicente morreu por volta de 1986, 87. Continuo péssimo para datas precisas.

Eu não lembrava.

E entre as fotos recuperadas, há uma feita em 1980 – bem a cara de 1980 – em que José Vicente aparece ao lado de dona Rita, minha querida avó paterna, que eu amava por me tratar como adulto, de igual pra igual.

Lá está ele, numa foto em cores, sob aquele alaranjado das tardes seridoenses, tendo como fundo o ginásio Ovídio Dantas, em  Parelhas – a casa na cidade onde ele ficava, e onde o vi pela última vez, situava-se ali na rua em frente.

José Vicente sorri na foto, passa o braço sobre os ombros de vovó Rita, como um namorado folgado e orgulhoso (vovó está de rosto fechado, mas ela não era assim, era apenas séria, mas não carrancuda).

José Vicente, nesta foto que minha mãe ajudou a recuperar pra meu deleite, está solar, quente, um sol de energia que faz o já ancião parecer muito mais jovem do que a idade que ali já tinha.

José Vicente voltou pra mim, e não poderia escolher hora melhor, quando eu próprio, pra sempre uma criança quando contrastado com a imagem dele, estou às vésperas de completar 59 anos – idade de velho para o menino que eu fui.

Aí está José Vicente, gabola como nunca.

Meu novo avô rock and roll que agora eu posso tirar da gaveta de naftalina onde o deixei durante décadas.

Que bom, José, que me deu esse sobrenome Vicente que tantos acham que é um duplo pre-nome para o meu Sebastião.

Bem-vindo de volta à minha memória, ao meu dia-a-dia, à minha inspiração para as últimas idades que se aproximam.

Sua juventude inesperada me fará um velho solar também, espero.

E agradeço, com a graça recebida de neto menino.

Sua bênção.  

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