Emperrado em Caetano
Pois estou assim justamente com o que menos esperava, o "Cine Subaé", uma coletânea de textos sobre cinema ou fragmentos relacionados ao tema escritos ao longo da vida por Caetano Veloso.
Como é que se "emperra" num livro com palavras e pensamentos de Caetano? Não esperava.
Mas devia ter previsto, sim, por alguns motivos:
1) Sendo uma seleção de textos sobre o mesmo assunto, escrito pela mesma pessoa, ao longo de uma vida, sendo sobretudo Caetano, cujas ideias eu e metade do mundo já conhece muito bem - embora ele sempre saiba surpreender, mas isso retroativamente não tem validade - era bem possível que em algum momento a leitura desandasse, atolasse num mar de ideias e frases repetitivas.
2) A ênfase do pensamento de Caetano é tão forte, tão chamativa quanto enjoativa quando o ouvinte/leitor se expõe demais a ela. O mesmo vale pra Glauber Rocha e outros realizadores culturais ou pensadores pop a quem tanto, é verdade, amamos.
3) O livro tem um senso de reverência, e isso quando voltado pra figuras como Caetano, Gil, Chico, Guimarães Rosa, Drummond, Niemeyer, Lula ou afins sempre resulta num erro de recepção e num enjoo de refração. Figuras emblemáticas que souberam virar um país ou um mundo de ponta cabeça ao trazer uma nova forma de encarar tudo - música, literatura, política, tecnologia, estrelato e o que seja - são praticamente assassinados quando se cultiva diante deles o sentimento da reverência. É preciso sempre estranhar algo que eles fazem, dizem, recomendam, sugerem etc etc.
4) E neste item eu já saio da perspectiva de "devia ter imaginado" e entro no livro propriamente dito: a edição é dividida em capítulos que organizam os momentos e o tipo de texto em que as considerações de Caetano sobre cinema foram ditas/publicadas. A primeira parte é uma delícia: o menino de 18/19 anos tentando ensinar aos conterrâneos de Santo Amaro da Purificação as lides do melhor cinema, ou daquele cinema digno do nome, o que aspira à condição de arte. A paixão exagerada com que Caetano faz isso é daquele tipo que contém a beleza entusiasma dessa fase da vida.
5) No momento em que escrevo este post, estou na fase da metade dos anos 80, quando ele lançou seu "Cinema Falado". É de um polemismo irritante, por Nossa Senhora de Nazaré do Santo Amaro da Purificação. É como voltar no tempo e ler/ouvir um Caetano que precisava provocar a cada espirro que dava - não era necessário, e hoje isso é limpidamente claro. Ele se tornou um chato, quando não precisava ser mais do que assertivo - o que sabe ser como ninguém. Enfim, estou numa parte do livro em que não suporto mais ler uma referência a Godard ou Fellini - já deu, tem sido demais. E, como disse, o formato da coletânea só reforça isso. Daí o item seguinte:
6) Entendi que os curadores, Claudio Leal e Rodrigo Sombra, devem ter tido duas opções pra editar esse material todo: um, o que tenho em mãos e no qual estou "esbarrado", reúne tudo o que eles conseguiram. Por uma questão de verdade documental, ele preferiram não abrir mão do que havia - ainda que tenham descartado um ou outro material menor, vá lá. A segunda opção era fazer algo mais sintético, representativo, emblemático mas menos extenso e repetitivo (porque não tem como Caetano não se repetir, sobretudo ele, tão cioso de suas ênfases). Daria um livro menor, mais pop, mais fluido, como um disco gostoso como "Outras Palavras" - o menos valorizado, mais esquecido, quase omitido e no entanto o meu preferido, pela sonoridade urbanizada, pela ligeireza e pela (aparente) falta de pretensão.
7) Pra encerrar, recomendo um outro livro dessa mesma linha - que não é sobre Caetano e o cinema, mas também não se resume a Caetano e a música. É "Lançar Mundos no Mundo", de Guilherme Wisnik, que em textos rápidos, exatos e nada repetitivos mostra como e porque Caetano se inscreveu na cultura pop brasileira como a figura que ele é hoje.
8) E pra encerrar mesmo, uma palavrinha sobre o erro da reverência: fui um dos milhares de brasileiro que foi a um estádio assistir ao show de Caetano e Bethania. Não sou louco desvairado de dizer que não gostei, ou que foi ruim. Mas, ao contrário da postura reverente - olhe aí - da maioria das plateias, fiquei, digamos, insatisfeito. Esperava do show a emoção que ele sem dúvida proporciona, mas em se tratando de Caetano e Bethania juntos, senti falta de algo mais - um tom fora do lugar, um exagero, um escorregão estético que incomodasse a distinta e comportada plateia. Algo mais Caetano e Bethania. Reverência - e reverência demais, que é o caso - mata o ídolo. Mesmo com a idade que os irmãos têm, ainda acho que eles rendem um tantinho mais.


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