CINEMATECA EM CASA



Quem futuca no computador assim sem motivo bem sabe que o YouTube é uma caixinha de surpresas. E se você duvida do clichê, experimente digitar na caixinha de busca os nomes daqueles filmes obscuros que parecem só ter sido vistos por você. Ou, por outra, e o que é bem pior, só terem sido apreciados por você. Posso citar “Quadrilha de Sádicos”, um completo desconhecido, pois não? Desconhecido pra você, cara pálida. Pra mim é um dos filmes mais importantes da história do cinema, por um motivo alheio ao objetivo desse texto (foi numa exibição incompleta deste filme que o cinema poeira da minha cidade foi destruído a pauladas pela plateia em fúria, mas isso é outra história).


Voltando: a caixinha de surpresas do YouTube se abriu pra mim ontem assim do nada, como é bem de seu feitio. Esbarrei num filme de Billy Wilder, o austríaco que brilhou no cinema hollywoodiano da era dos estúdios nos deixando pérolas como “Quanto mais quente melhor” e “Crepúsculo dos Deuses”. O título é “Um amor na tarde”, o ano de produção é 1957, a estrela é Audrey Hepburn e o astro – já meio passado pra combinar com a eterna bonequinha de luxo – é Gary Cooper, que mais parece o avô da mocinha e não seu par amoroso.


O que importa é: o filme é simples, direto, sucinto, de uma objetividade que lembra muito Woody Allen, nada ambicioso como seriam, por exemplo, “Testemunha de Acusação” ou “Pacto de Sangue” – ao menos se a gente enxergar esses títulos como o que eles se tornaram ao longo da história, ou seja, verdadeiros marcos. Assistir a “Um amor na tarde” me lembrou a deliciosa experiência da era do videocassete, primeiro porque a definição do filme no YT está longe do 4K com que nossos olhos se acostumaram – é no máximo de um SD ligeiramente míope. Mas a imprecisão visual colabora de alguma maneira em trazer de volta aquele clima que a geração Z nunca será capaz de imaginar. 


O fato é que o filme, que encontrei num canal repleto de produções desse tipo, incluindo muito cinema brasileiro dos anos 70 e 80, pareceu-me uma amostra quase didática do cinema de Wilder, com seus diálogos afiados, seu senso de comédia de situação roteirizado com um esquematismo que, ao invés de soar artificial, resulta inteligentíssimo. Hepburn é a filha de um detetive que investiga Cooper, célebre ricaço conquistador que roda pelo mundo destruindo casamentos. Quatro personagens - além da mocinha e do mocinho, o pai dela e o marido traído - bastam para Wilder deitar e rolar criando as situações mais hilárias, ainda que não exatamente inesperadas. E tudo isso em Paris, com uma sequencia de abertura que é um primor de ensaio visual.


*o canal no YT é o Antiqua Gold.

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