ANALÓGICO, MAS EXCLUSIVO
Que o capitalismo dá sinais de fadiga, é inegável. Basta sair à rua para realizar qualquer atividade e este estado de coisas vai se tornar evidente. Nas grandes cidades, são como luzes piscando no céu. Em viagem recente a São Paulo, fiquei impressionado com o desgaste das pessoas, dos seres humanos que me pareceram robotizados por uma vida de exaustão no trabalho. Senti esse cansaço terminal nas respostas (quando respondiam) que recebi diante de atendente ou balconistas. Gente que parecia estar na base da cadeia trabalhista, implorando pelo modelo 6X1, mas não, há vários e vários sobrevivendo em degraus bem abaixo deles. Nem queira pensar o que eles pensam de suas vidas. Não por acaso, surgiu no horizonte poluído da cidade um espectro chamado Pablo Marçal.
Se os muros do socialismo estatal planejado e
corrompido morrem, nada indica que seu equivalente em cifras, lucros, ganhos e
exploração do homem pelo homem do lado de cá não possa ter o mesmo fim. No final,
sofremos todos, numa ou noutra banda da velha e puída cortina de ferro. Mas ainda
não é este o ponto aqui.
A questão, a surpresa, o inimaginável de que me
ocupo é a capacidade de mercantilização que esse sistema em ruínas segue sendo
capaz de mostrar. A última demonstração desse poder quase mágico está na fronteira
entre o digital e o analógico. Ou serei apenas eu que me impressiono com a
forma como o mercado está alçando os produtos analógicos – que até outro dia
eram carta fora do jogo – em novo fetiche da riqueza ostensiva?
Tive a ideia boba de iniciar uma coleção de discos
de vinil, não daqueles comprados em sebos – essa eu já tenho e segue
aumentando. Queria lançamentos, desses álbuns caprichadíssimos que estão chegando
às poucas e seletas lojas que vendem esses produtos. Pensei que gastaria uns 250
reais por disco, um a cada mês para não abusar da minha economia doméstica.
Qual nada... não encontrei nada por menos de 350 – e encontrei muita coisa em
torno dos 400 e lá vai porrada. Desisti, na hora.
Some a isso a quantidade de videoblogs no YouTube de
gente se mostrando como o mais avançado terráqueo do pedaço por usar produtos
analógicos. A mais recente onda destaca a volta do velho discman, o leitor de
CDs portátil. Quem me conhece sabe que eu sou um fã incondicional dessas
tranqueiras. É maior que eu, não posso conter. Até ainda tenho um discman, comprado
numa prateleira de um hipermercado em Orlando. Encontrei o mimo no meio de outros
produtos rejeitados pelo mercado. Era um relíquia. E no entanto, agora, hum...
há lançamentos reluzentes do device recriado e, sim, inacessível. Uma baba.
Sei que os novos vinis custam tão caro por não serem
produzidos em escala suficiente para que o preço seja mais, digamos,
democrático. Ah-rã. Entendo a numerologia da produção industrial, mas me
incomoda certa volubilidade na definição do valor das coisas – e sua
consequente ascensão a objeto de culto, no altar das exclusividades. Isso é
vilania capitalista de primeira. É a mercantilização
do gosto no que parece ser o ponto mais extremo. A conquista de uma identidade falsa por meio do que consta na fatura do cartão de crédito. Mas nem há de parar por aqui. Porque a
transformação de desejo em mercadoria, e de mercadoria em identidade, sempre pode surpreender. Ainda que na
esquina adiante a ruína se manifeste na forma do emprego mais desumano.

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