MUJICA / GANDHI


                                 

Em 1982, graças a um daqueles filmes biográficos a que não é preciso assistir para tomar conhecimento, uma figura política tão esquálida quanto carismática integrava o álbum de figurinhas das pessoas que o mundo passava a admirar. Era Gandhi, assassinado em 1948 no difícil contexto dos conflitos indianos, mas que graças ao sucesso do filme ocupou todos os espaços em tevês, jornais e revistas, integrando imediatamente uma espécie de receituário pop da paz e do equilíbrio ao alcance de quem quisesse. E não só pela via da recusa à violência que o marcou, mas também por sua imagem de sobriedade extrema até nas vestes.


“Pepe” Mujica renova este papel desde que se destacou no cenário político latino-americano, com sua incrível história de sobrevivente da violência extrema da ditadura uruguaia – e ainda mais agora com sua morte física. Entre ambos, o filme “Gandhi”, dirigido por Richard Attenborough , e a morte do ex-presidente Mujica, esta semana, são mais de quatro décadas de  história convulsa em torno de nossa humanidade confusa. Uma humanidade que evolui tecnicamente mas regride, ou ao menos se vê perdida, quando se fala de progresso civilizatório, espiritual, pós-material.


A correspondência entre ambos é clara, circunstâncias históricas específicas à parte, para quem viveu estes dois momentos. Em 82, Gandhi tornou-se tão popular quanto John Lennon após o assassinato de dezembro de 80. Venho de uma cidade do interior, dos anos 70, onde as informações não chegavam em torrentes ansiosas e demolidoras como acontece hoje em todos os lugares. Havia gradações, tínhamos tempo para digerir algo novo, uma ideia inesperada, um conflito social ou uma proposta polêmica. Não havia este vira-página, ou sobe-tela que agora faz com que a novidade de hoje seja a antiguidade de amanhã. A gente esmiuçava o pouco que recebia.


Gandhi, que só faltou virar capa de caderno escolar, tinha ainda mais elementos para incrementar essa imagem marcante e definitiva: vinha de longe, de uma Índia praticamente desconhecida, de uma sociedade tão diversa e intrigante. Emanava uma atmosfera espiritual muito forte que dispensava, ao público distante do interior nordestino, o conhecimento das segregações típicas da sua cultura distante. Era perfeito para virar mito – mito mesmo, nada fabricado como tantos hoje em dia. Isso chegava às classes populares, onde eu mesmo me encontrava como um adolescente apascentado.


Mujica, aí, difere. Não acredito que possa romper, entre os admiradores, certa barreira de classe. E isso talvez justamente por cultivar o menos em vez do mais, o desprendimento geral ao invés da soberba da posse, da exclusividade e do desperdício. As classes populares, o CLT de salário mínimo, o entregador do rabo da cadeia empregatícia, carente de recursos e de perspectivas, dificilmente vai entender um apelo ao valor espiritual do que quer que seja. Quer mais é ficar rico - e é tão difícil convencê-lo do contrário quanto não reconhecer alguma legitimidade neste desejo. 


O uruguaio é muito querido pela classe média brasileira mais esclarecida, aquela parte que não cedeu às facilidades do bolsonarismo, ao culto ao empreendedorismo, ao canto sedutor de ofertas falsas dessa direita recém-saída do armário. Mujica é ídolo de estimação do jovem bem formado da área de humanidades e quanto mais classe média alta maior é a chance de ele ser objeto de culto com paradigma político e civilizatório em sua cruzada por tornar o simples a prioridade, sem ostentação pessoal ou governamental. 


Queria que não fosse assim, mas os cinquenta mil passos atrás que o Brasil e o mundo deram nos últimos anos fazem com que o fenômeno Gandhi não se repita integralmente com Mujica. Mas é sempre bom notar que este processo de identificação é ao menos renovado com uma outra persona. Pena que aquela família de pobres ou classe média de direita que mora na rua em frente ou na porta ao lado nunca vá simpatizar muito com ele. Ou ao menos não tanto quanto simpatiza com o pastor a quem ouvem todo domingo no culto.

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