UMA COZINHA NAS RUÍNAS DO CAPITAL
Acabo de passar cerca de 90 minutos dentro da cozinha
do “The Original Beef of Chicagoland”, um dos lugares mais estressantes do planeta
Terra. É lá que Carmy (Jeremy Allen White), que já foi eleito um dos melhores
chefs jovens dos EUA, tenta tocar pra frente o que era um restaurante de rua,
tão bom quanto barato, do seu irmão, morto precocemente num suicídio mal
explicado. Mas tudo é bem mal explicado em “The Bear”, a série. Não importa, a
gente vai entender.
Tudo é frenético, a vida está por um fio, os ânimos
no limite e a sensação geral é de que o restaurante, a vizinhança, o bairro,
Chicago inteira pode ir pelos ares a qualquer momento. Num dos episódios, o
sanitário nem um pouco convidativo do lugar simplesmente explode – bummmm,
jorrando água servida pra todo lado. E o cara que costuma fazer todos os
consertos do lugar aparece pra dar seu jeito e... se oferece para se tornar um
dos “chefs” do estabelecimento. Sim, porque todos que habitam essa cozinha do
inferno são chamados de “chef” por decisão de Carmy – o estressado que pode,
também ele, implodir na mais veloz forma de impaciência a qualquer instante.
Não só ele, como também o “primo” Richard, com um passado mal contado e que também
insiste em tomar conta do lugar, rivalizando com o irmão do suicida.
Isso é “The Bear”, em episódios curtos de até 30
minutos – porque não dá pra ir além disso, seria demais. Você acaba de assistir
tão exausto quanto os subempregados do lugar. O tema de fundo, como não poderia
deixar de ser, é este estado de coisas e de pessoas deste lindo subcapitalismo
que o sistema virou. As ruínas do dinheiro. As angústias, o mal estar da
civilização no limiar do abismo, o dia cheio de trabalho extenuante, a... é
isso mesmo, a reforma trabalhista geral e universal que arrasou tudo ao nível
do intolerável.
Mas... é bom de ver,
porque a edição tem aquele quê de
Thelma Schoomaker, a montadora dos melhores filmes de Martin Scorsese. Sai um
uivo de guitarra, o rock engata e os takes se sucedem naquele ritmo frenético
que vimos, por exemplo, em “Os Bons Companheiros”, quando Henry (Ray Liotta) tenta
dar um jeito na bagunça geral que criou ao dedurar seus companheiros da máfia.
No sétimo episódio, há uma longa narrativa em plano-sequência em que mal
conseguimos respirar – os personagens presos na série e nós aqui fora também (o
melhor plano-sequência é assim, do tipo que a gente nem percebe e embarca
totalmente na sua pisada).
Duro é acompanhar tudo pelo Disney+ se valendo das
legendas em português de Portugal – aquele idioma onde “cool” se traduz não por
“legal” mas por “fixe”. No episódio inicial, quando a recém-contratada “chef”
Sidney pergunta por que Carmy largou o restaurante de ponta em Nova Iorque pelo
do irmão em Chicago, ele diz que gosta de fazer “sandes”. Tive que dar um
google pra descobrir que isso é gíria carinhosa pra “sanduíche” em Portugal.
Seriado também é cultura, gajo.
Também há algo de Tarantino nos longos diálogos
dentro daquela cozinha terminal que, com o perdão da metáfora rasteira, dão
aquele molho à recriação das doenças do nosso tempo. Muito cool, quer dizer,
fixe. De forma que, toda vez que vem a frase “20 minutos pra abrir”, tudo fica
ainda mais agitado e ansioso entre as quatro paredes dessa atração que nunca,
jamais, em tempo algum é recomendado pra quem curte culinária, programas de concursos de receitas, essas
coisas. Está lá, a toda hora, a iconografia do gênero, como cebolas e cenouras
sendo cortadas em ritmo industrial, ovos sendo batidos, líquidos misteriosos
sendo derramados em bacias já cheias de ingredientes exóticos, mas é tudo em
nome de um prato chamado requentado ansiedade – e nunca de forma limpinha como
se espera do mundinho gourmet.
“The Bear” amarga na boca, mas agita o cérebro e
traduz a loucura do mundo pre-qualquer coisa final em que afinal vivemos.
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