MEU PAI, OLIVER SACKS E A DIGNIDADE NA DOENÇA

 


Meu pai tinha a doença de Parkinson. O mal lhe apareceu pouco tempo após ele se aposentar de suas atividades, parando de ser o que fora durante anos – um homem forte, incansável, bem disposto e tão ativo que todos os dias dormia muito pouco tempo após o sol de por, “enfadado” como ele sempre dizia. A enfermidade degenerativa apareceu tão logo ele entrou no período do mais merecido descanso – era um misto de feirante e comerciante de frutas, viajando frequentemente entre Parelhas (RN) e os sítios da região, onde comprava sua mercadoria dos agricultores, e o Ceasa de Campina Grande, a feira de Caicó ou a fábrica de doces Simas Industrial, na avenida Salgado Filho, em Natal (pra quem levava carradas e carradas de goiaba).

A doença, ou talvez os medicamentos que tomava em função dela, causavam verdadeiros delírios em meu pai. Podiam ser violentos, com o dia em que quebrou uma dessas cadeiras de plástico num ataque de fúria (foram poucos, mas assustadores, levando em conta que sempre fora um homem pacífico). Um dia, após levar meu pai de carro de Natal para o Seridó, estávamos na calçada da minha cunhada Sandra em Acari (RN), ali de frente para a continuação da rodovia transformada em Rua da Matriz, quando ele me “agradeceu” pela carona como se eu, seu filho, fosse um desconhecido generoso. Tão generoso que ele simpatizou comigo e, aí está, resolveu me contar a história de sua vida. Resumiu tudo, da infância ao presente momento (o dele, onde não havia, claro, doença alguma), com o detalhe importante de me incluir no relato. Meu pai me falou de mim pra mim mesmo, como se eu fosse outra pessoa. Acho que me elogiou e tudo.

Sou naturalmente lento pra reagir ao inesperado. Meu reflexo é próximo de zero. Então apenas ouvi. Mas não foi só por falta de agilidade mental ou algo assim: me veio a sensação de que aquilo – contar sua vida, resumir quem ele foi em palavras (logo ele, mais pra calado, como eu) fazia bem ao meu pai. E eu, que sou do tipo que aprecia uma boa narração, não tive dificuldade alguma em apenas acompanhar sua história.

Hoje, lendo “Tudo em seu lugar”, um daqueles livros em que o neurologista britânico Oliver Sacks narra seus casos clínicos, num caso à parte de relatos puxados ao científicos que cativam leitores em todo o mundo, deparei com uma espécie de consolo. No capítulo intitulado “Dizer”, Sacks discorre sobre o momento em que o médico precisa revelar ao paciente que ele está sofrendo de um mal degenerativo que vai lhe tomar a consciência de existir. Deve mesmo dizer? Esta é a chave do texto. Nem sempre.

E Oliver Sacks, que honrou sua passagem por este mundo com seu trabalho como médico e também como escritor (pra quem não ligou o nome à pessoa, ele é aquele médico e pesquisador que inspirou o filme “Tempo de Despertar”, quando seu papel foi interpretado por Robin Williams), deu-me um consolo décadas depois do meu próprio pai ter partido daqui. Naquela tarde em Acari, eu estava certo: não tirei dele, mesmo no delírio, sua “identidade natural” que ele exibia ao me contar sua história. Aqui, além da questão de saúde, entra a noção de dignidade. A doença não vai parar, mas o respeito à necessidade do doente precisa, justamente por isso, continuar.

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