VELHAS FAZENDAS, ESPARÇOS LIVROS


Na câmara mal iluminada por uma vela oscilante, a empregada de então reúne as crianças em volta e – entre lençóis, toucas, travesseiros de pano grosso e sobre colchões rústicos, em aconchego noturno de uma casa sertaneja solta na grande noite do Seridó dos tempos iniciais – anuncia:

-Hoje a estória é sobre a coruja que virou noiva prometida.

A audiência, entre irmãos e primos, agregados e acolhidos, arregala os olhos e espera o que virá.

-Na hora do ângelus, o canto do rasga-mortalha anunciou seu despertar.

Um sentimento de temor misturado a conforto – afinal, estavam todos sob aquele teto protetor, no balaio de uma família cheia de aventureiros plenos de coragem – envolveu a meninada.

A empregada seguiu arremedando falas, imitando os grunhidos dos bichos, enumerando feitos e desfeitos, desfiando a história de trancoso daquela noite.

As crianças, que minutos antes deram trabalho para admitir o lava-pés com água quebrada-a-frieza, o vestir dos panos de dormir, a impaciência para chegar àquele esperado momento do dia, seguiram ouvindo a narradora de sempre. Porque nesta e noutras casas, era sempre ela quem dizia os contos. A empregada era o livro da casa. O que hoje se chama ficção. O streaming de antanho. A autora campeã de atenção da telenovela de cada noite. Algumas, de tão bem sucedidas no seu ofício – ou nesta parte do seu ofício – poderiam até ser chamadas a narrar seus causos noutras fazendas, para outras crianças.

Esta pequena cena que construí aqui achei neste singelo, breve mas interessante livro sobre livros. “Seridó  - Século XIX (Fazendas e Livros)” é um levantamento superficial mas ainda assim cheio de curiosidades sobre os livros que havia nas propriedades rurais do Seridó do século retrasado, assim na forma de posses esparsas, esporádicas – ou seja, livros  que se tinha em casa em não mais que um ou dois volumes; e não livros de coleções de padres ou rábulas estabelecidos.

Os autores os dividiram entre “livros de gaveta”, “livros de prateiras” e “livros de orações” – e só os títulos já sugerem a natureza da classificação e o que mais consta desse registro. Há coisa surpreendentes como um tal “Código do Bom Tom” que – descontados os contextos históricos – bem que faz falta hoje em dia na seara da (in)comunicação virtual. Há o “Adoremus”, um compêndio popular de orações para o cristão se defender na vida da paróquia que, desconfio, fez parte da vida da minha mãe – ou ao menos dos meus avós, maternos e paternos. 

Há várias citações das rústicas bibliotecas de fazendeiros de Acari – uma cidade-repositório, pelo visto capaz de revelar muito mais sobre o passado histórico do Rio Grande do Norte. E há muito sobre medicina caseira, claro, dentro ou fora dos almanaques do tipo “Lunário Perpétuo” que é quase obrigatório num levantamento como este.

Não sei onde comprei este livro; certamente foi numa das viagens a Natal em fins de ano. Do Pe. João Medeiros Filho e Oswaldo Lamartine de Faria.

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